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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

António Maria Eusébio "O Calafate"

Monumento no Jardim do Bonfim em Setúbal de homenagem a António Maria Eusébio, o “Calafate” ou o “Cantador de Setúbal”.
Conhecido por o “o Calafate” devido à profissão de artífice da construção de barcos de madeira e por o “Cantador de Setúbal” pelo tema, quase constante dos seus poemas: a cidade de Setúbal que tanto amou.
 A estátua foi inaugurada em 29 de Dezembro de 1968, por iniciativa do Rotary Club de Setúbal.
O monumento, da autoria do escultor Castro Lobo, é de bronze e mármore branco.
O poeta Calafate, como carinhosamente é recordado em Setúbal, era um homem analfabeto (iletrado), mas os seus poemas são uma constante lição de sabedoria. São dele os versos que se transcreve, verdadeiro resumo de uma vida inteira, inscritos no pedestal do seu busto (acima ao lado):

"Nunca fui mal procedido.
Nunca fiz mal a ninguém.
Se acaso fiz algum bem
não estou disso arrependido.
Se mau pago tenho tido,
são defeitos pessoais.
Todos seremos iguais
no reino da eternidade.
Na balança da igualdade
Deus sabe quem pesa mais."


********************

Biografia


Poeta popular de Setúbal, que nasceu a 15 de Dezembro de 1820 e morreu a 22 de Novembro de 1911. Tinha por ofício o calafeto de barcos no Sado. Apesar de ser analfabeto, criava de improviso cantigas sentimentais, ou satíricas, que eram acompanhadas à guitarra. Outros tipos de canções podiam ser de homenagem a pessoas por quem nutria admiração, ou ainda, quando ocorriam festas e procissões.
Quando já lhe não era possível continuar o trabalho de calafeto, e não tendo outro meio de subsistência, as suas canções foram editadas e vendidas em folhetos, por ele próprio e pelos amigos durante ocasiões festivas e comemorações religiosas, tanto na região de Setúbal, como noutras. Muita da sua produção literária era conservada através dos amigos que memorizavam rimas suas ou então as escreviam, tendo "o Calafate" atingido com elas grande notariedade. Diversos jornais, a título de exemplo, o Jornal de Setúbal, em 1868, difundiram as suas criações poéticas. Em 1901, foi publicada uma compilação de versos deste poeta, juntamente com algumas notas biográficas e um prefácio elogioso de Guerra Junqueiro; essa edição deveu-se à iniciativa do General Henrique das Neves. Durante as comemorações da morte do poeta Bocage, em 1905, foram editados em folheto, versos de António Maria Eusébio, dedicados àquele poeta.

Fonte de informação
CNC / Patrimatic

**********************



A QUINTA DA PANASQUEIRA

MOTE

Fui apalpar as gamboas
Que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O seu bastardo já pinta.

GLOSA

Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pelos altos
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé de um poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.
  


A RESPOSTA DA QUINTEIRA

MOTE

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão.

GLOSA

Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.



RESPOSTA AO PESCADOR

MOTE

Tu pescas e eu apanho
Quanto tu pescas eu caço,
Tu pescas para o teu chalrão,
Eu apanho para o meu laço.

GLOSA

Tu rapaz eu rapariga
Tu petiscas e eu petisco,
Tu no mar pescas marisco
E eu em terra apanho espiga.
Tu de cu e eu de barriga,
Se banhas também eu banho,
Tu perdes, eu sempre ganho,
Tu tens pau e eu tenho a risca,
Tu tens pesca e eu tenha a isca,
Tu pescas e eu apanho.

Tu em certas madrugadas
Fazes a pesca geral,
E eu dentro de qualquer nabal
Apanho boas nabadas.
Tu pescas coisas salgadas,
Eu apanho algum cabaço,
Tu abaixas o regaço,
Eu sou fêmea e tu és macho,
Eu para cima e tu para baixo
Quando tu pescas eu caço.

Tu és pescador de fé,
Vais pescar a várias partes,
E eu vou apanhar tomates
Quando vejo dois num pé.
Para nós sempre há maré,
Nunca falta ocasião,
Com iscas de lingueirão
Vais pescar a qualquer Tejo
Camareiras com badejo,
Tu pescas para o teu chalrão.

Tu pescas peixes taludos,
Na pesca fazes empenho,
Eu com um bom laço que tenho
Apanhos pássaros papudos.
São iguais nossos estudos,
É igual o nosso passo,
Com as armadilhas que faço
Tenho a passarada certa,
Tendo a ratoeira aberta,
Eu apanho para o meu laço.



JÁ FUI OPERÁRIO ARTISTA

MOTE

Já fui operário artista
Agora, já pouco valho;
Comprem-me algum papelinho,
Em paga do meu trabalho.

GLOSA

Já gozei a mocidade
Esse bem tão precioso,
Fui homem laborioso
E trabalhei de vontade.
Já servi na sociedade,
Já fui homem moralista,
O meu vulto já fez vista
No seio das classes pobres,
Já fui nobre ao pé dos nobres,
Já fui operário artista.

Já tive as mãos calejadas
Do muito que trabalhei,
Meus braços atormentei
Com ferramentas pesadas.
Tive horas amarguradas,
Joguei, rasguei o baralho,
Hoje apanho algum retalho
Que a ambição deixa cair,
P'ra pouco posso servir,
Agora já pouco valho.

Até ando ameaçado
De fome ainda passar,
Por a um homem estimar,
A quem estou obrigado.
Sou pobre velho e cansado,
Estou no fim do meu caminho;
Porque sou do Zé povinho,
Não devo ser esquecido,
Seja qual for o partido,
Comprem-me algum papelinho.

Nunca fiz ruins papeis
Nem andei pondo cartazes
Nem atirei aos rapazes
Com moedas de dez réis.
Falem, pois, os infiéis,
Chamem-me velho, espantalho;
Como, agora já não valho
De tabaco uma pitada,
Levo alguma bofetada
Em paga do meu trabalho.



CANTIGA

MOTE

Foi a maçã da ciência
O fruto que Deus proibiu;
Só se pagou com a morte:
Bem cara a todos saiu!

GLOSA

Adão foi o que se via
Rei, senhor de todo o mundo:
Não tinha rival segundo,
Tinha tudo quanto q'ria.
Até Deus lhe aparecia
Com a sua omnipotência:
No jardim da inocência
Toda a ventura lhe deu;
Somente o que não foi seu
Foi a maçã da ciência.
Sem rival foi Satanás,
P'ra acabar co'a f'licidade,
Por ser da humanidade
Um inimigo sagaz:
Com a astucia perspicaz
A nossos pais seduziu,
Mas Adão não engoliu,
Ficou-lhe o nó na garganta,
Porque era a maçã santa
O fruto que Deus proibiu.
P'ra o nosso pai desgraçado
Nada mais lhe foi preciso
P'ra sair do Paraíso,
A mil males condenado,
A' morte sentenciado,
Por esta pena tão forte!
E toda a adversa sorte
Sofre Adão com paciência,
Porque a desobediência
Só se pagou com a morte.
O mundo todo se encheu
De uma glória vã...
Por causa de uma maçã
Que nem toda Adão comeu,
Tudo o que é vivo morreu!
À morte ninguém fugiu!
Se o fruto que Deus proibiu
É ferro que a todos mata...
Sendo a maçã tão barata,
Bem cada a todos saiu!

32 comentários:

  1. Obrigada por compartilhar a biografia e todos esses poemas maravilhosos de Antônio Maria Eusébio.
    Bjs Francisco.
    Carmen Lúcia.

    ResponderEliminar
  2. Não conhecia o autor. Gostei deste tipo de poemas populares e brejeiros.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  3. Bom post ;) Informativo e interessante ;) Continue a partilhar ;)

    http://emierre-photography.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  4. Meu amigo, obrigada pela partilha. Não conhecia o poeta.
    Admiro quem assim verseja. O facto de ser analfabeto (muito comum na época em que viveu), acrescenta-lhe um valor incalculável e isto só prova que o talento existia, não teve foi condições para ser alfabetizado.
    Dei-me ao cuidado de apreciar a estrutura formal: as glosas (um mote e, neste caso, desenvolvimento em décimas, sendo que cada estrofe termina com um verso do mote) são perfeitas, quer no que respeita à rima, quer à métrica (redondilha maior, verso de 7 sílabas métricas). Parece fácil mas não é. Este género poético é muito musical, portanto muito adaptável a ser cantado. A cidade pode orgulhar-se de gente desta dimensão. Parabéns pela divulgação.
    Obrigada pela tua visita. Já agora, leste o poema "Visitação"? Gostava muito que o fizesses. Perceberás o porquê. :)
    Bjo, Francisco :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pela tua visita ao meu "Visitação"...
      :) :)

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    2. Não tem que agradecer minha amiga, foi um prazer.
      um abraço.

      Eliminar
  5. Francisco , agradeço a partilha . Também a mim era desconhecido este poeta . Abraços .

    ResponderEliminar
  6. Confesso que não conhecia.
    Sempre a aprender!
    Aquele abraço, boa semana

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  7. Olá Francisco
    Não conhecia o poeta, gostei da partilha. Abraços

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  8. Não conhecia de todo este Eusébio... ;)

    Abraço

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  9. Não conhecia fico contente de conhecer...É bom aprender coisas novas :) Belo dia Francisco e obrigada pela partilha :)

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    Respostas
    1. O objectivo era dar a conhecer este poeta popular de Setúbal.
      Um abraço.

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  10. Francisco não conhecia, poeta maravilhoso, que bom que compartilhou é muito bom conhecer poetas, Francisco abraços.
    http://www.lucimarestreladamanha.blogspot.com.br/

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  11. Oi Francisco,
    Que maravilha e sendo analfabeto, aqui no Brasil temos algo parecido: os nordestinos com seus violões quando um começa cantar e tocar para o outro continua: eu adoro´.
    É o famoso Repente.
    Beijos
    minicontista2

    ResponderEliminar
  12. Francisco:
    Gosto muito de ler estes poemas, de poetas ditos populares, pois encerram a sabedoria simples da vida.

    Grata por esta partilha.

    Um beijinho

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  13. Parabéns pela escolha Francisco! Belo post. Lindos poemas. O António Maria Eusébio fez por merecer a grande homenagem.

    Abraços,

    Furtado

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  14. Excelente sua postagem, caro Francisco sob esse homem que nasceu poeta. Setúbal não esqueceu o seu poeta, como se vê pela bela homenagem a ele,pelo visto mais que merecida.
    Grande abraço.
    Pedro.

    ResponderEliminar
  15. Olá Francisco
    Assim eles ficam imortalizados neste tipo de obra, e o poemas são ele falando sem estarem mais aqui.
    Abraço.

    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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  16. Olá Francisco! Passando para te cumprimentar e desejar uma ótima semana para ti e para os teus.

    Abraços,

    Furtado

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  17. Olá, Francisco!

    Conheço alguma coisa da biografia e bibliografia de "Calafate". Temos outro Aleixo, não?

    Abraço e boa semana.

    ResponderEliminar
  18. Olá Francisco! Passando para agradecer a visita e amável comentário deixado no nosso espaço, assim como desejar um ótima semana para ti e para os teus.

    Abraços,

    Furtado

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  19. Mestre Francisco, lindo, lindo, lindos versos desse poeta popular. Meu bisavô materno também tinha o apelido de calafate. Para nós, calafate é o nome de um pássaro e dizem que antigamente seria a profissão de quem calafetava cascos dos barcos de madeira. Em Portugal, calafate seria o calafetador de barcos? Grande abraço. Laerte.

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  20. Te envio mi pagina de poesias por si deseas visitarla.
    Gracias
    http://anna-historias.blogspot.com.es/2016/10/rio-parido-del-deshielo-apunado-en-el.html?m=1

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  21. Olá Francisco! Passando para agradecer a tua visita e amável comentário, assim como desejar uma semana com muita saúde e paz para ti e para os teus.

    Abraços,

    Furtado

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  22. Um poster cheio de uma verdadeira obra de arte. Parabéns pela elegante postagem. Um abraço

    ResponderEliminar
  23. Francisco
    Conhecia o nome e vi até um volume, que numa livraria de Setúbal, curiosamente, não dei a grande importância que aqui está provada.
    Li e reli e surpreendi-me com a qualidade.

    http://danielmilagredanieldaniel.blogspot.pt/
    Abraço

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    Respostas
    1. Ainda bem que gostou e apreciou a poesia deste poeta popular muito esquecido.
      Um abraço.

      Eliminar
  24. Oi Francisco! Passando para desejar muita saúde e paz para ti e para os teus.

    Abraços,

    Furtado

    ResponderEliminar
  25. Um post rico em palavras de vida... A vivência e a sensibilidade do poeta, escritor são mesmo profundas aqui...
    Abraço

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