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terça-feira, 11 de julho de 2017

Uma Nuvem num Pote de Barro - Miguel de Castro Henriques

Autografo e dedicatória do meu amigo o escritor Miguel Henriques

“Gostava de um dia ler estes meus contos como se fossem de outra pessoa, de alguém que ao mesmo tempo sou eu e não sou se. Escrevi-os sem atravessar as torturas que dizem ter o acto criativo. Ao contrário, deixei-me levar por uma voz interior pequena, quase muda e reticente, e de aparição instável, de tal modo que o subtítulo deste livro poderia ser “Contos da Pequeníssima Lua”.
Penso que os contos são um modo de regressarmos a nós, à surpresa de ser e redescoberta da nossa identidade, e também são entretenimento. Esta é uma palavra de que a industria dos media se apropriou para adormecer a nova tribo planetária, a tribo audiovisual. Porém, entreter tem um significado mais amplo do que uma simples diversão, tem a ver com um domínio do tempo, com uma suspensão do tempo, que o pode dilatar e fazer entrar no registo do tempo mítico.
Sendo assim estes contos foram escritos contra e a favor do tempo moderno. Contra, porque a fragmentação, nova formatação e compactamento do tempo moderno induzem experiências esquizofrénicas; a favor, porque tem a haver um tempo absolutamente moderno que abranja todos os tipos de tempo que até agora experienciámos.
Toquei em alguns personagens lendários da história de Portugal, e tratei de trazer à luz o seu lado obscuro, labiríntico, em vez da versão platónica que aprendi na infância. Para mim, a contemporaneidade mais vibrante brinca com uma re-apropriação e re-invennção de todos os passados e também com um certo jogo barroco do significante.
No entanto, nunca se consegue o objectivo; mesmo depois da flecha acertar no alvo, o alvo continua a voar. Talvez seja esse afinal o objectivo: encontrar um novo alvo”
Miguel de Castro Henriques


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Miguel de Castro Henriques (Buenos Aires, 5 de Junho de 1954) é um escritor, poeta, pintor e tradutor, representante do surrealismo português.
Frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa e estudou filosofia na Faculdade de Vincennes, onde foi aluno de Gilles Deleuze. Durante a sua estadia em Paris em 1971 frequenta a Academia IFIF de La Petite Lune. Com João de Sousa Monteiro fundou o Movimento Abaldista ou Abald, em ano incerto, num golpe de sorte. Fez parte do grupo dissidente "Os Surrealistas" do qual fazem parte entre outros os seguintes poetas Virgílio Martinho, Herberto Helder, António Quadros, M.S.Lourenço, Nicolau Saião, Mário Botas, Hermínio Monteiro e Miguel de Castro Henriques. Mais tarde com Mário Cesariny e M.S.Lourenço fundou o Bureau Surrealista ainda em actividade.
Miguel de Castro Henriques tem amplamente praticado a escrita e a pintura automática, e alguns dos seus livros de contos, como Uma Nuvem num Pote de Barro foram publicados na Assírio&Alvim.

sábado, 13 de novembro de 2010

MIGUEL DE CASTRO HENRIQUES - O Sopro das Vozes

Dedicatória e autografo do amigo e escritor Miguel Henriques 


O SOPRO DAS VOZES

TEXTOS DE ÍNDIOS AMERICANOS

Na passagem de milénio o princípio de interconectividade (no sentido de Italo Calvino) pode-nos ajudar a mudar do cenário pós "Aldeia Global" para um Cosmopolitismo Global, de culturas diferenciadas, mutuamente redescobrindo as suas tradições e em estado de Renascimento: o estado de abertura. Na abertura mútua, interconectiva, entre culturas, a filosofia e a sabedoria do Índio podem-nos enriquecer muito: a sua relação de amor e veneração pela mãe Terra, o código e etiqueta da sua vida de caçador e guerreiro (semelhante ao das vias do guerreiro zen), o seu ecologismo espontâneo, o seu espírito comunitário e colectivo, democrático, tolerante; o respeito pelos mais velhos e a protecção e tempo que confere às crianças, a sua atitude de não competitividade, a importância que dá à dança, podem-nos ensinar a dar novos passos para um outro e novo entendimento das coisas.

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Nesta pequena colectânea de textos índios, que esperamos venha a ser um ponto de partida para que o leitor se sinta motivado a aprofundar o assunto, em primeiro lugar reunimos textos provindos da tradição oral de diversas tribos (como os Pequot, Nez Percé, Algonquinos, Tlingit, Sioux, Hopi e outros) e recolhidos no virar do século passado e no dealbar deste por etnólogos americanos. Trata-se de textos que nos falam da Criação do Mundo. Estamos perante uma linguagem que não é certamente a das ciências exactas, antes a do Mito e das lendas, e como tal nos falam na linguagem da revelação: a simbólica."

Miguel Castro Henriques (excerto do prefácio)




sábado, 3 de abril de 2010

MIGUEL DE CASTRO HENRIQUES - Uma Menina de Sete Gatos ou o Saldo de Eüler



Livro Este é um livro de crónicas onde a imaginação não conhece limites, dando-nos a conhecer um mundo fantástico. As histórias são construídas de forma labiríntica, introduzindo elementos que por vezes não nos ajudam a encontrar a saída, mas pelo contrário nos fazem mergulhar ainda mais na leitura, inundando-nos de ficção. São pequenas odisseias onde tudo é possível, uma vez que nos encontramos no domínio dos sonhos das personagens e dos nossos próprios sonhos.
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Miguel de Castro Henriques (Buenos Aires, 5 de Junho de 1954) é um escritor, poeta, pintor e tradutor, representante do surrealismo português.
Frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa e estudou filosofia na Faculdade de Vincennes, onde foi aluno de Gilles Deleuze. Durante a sua estadia em Paris em 1971 frequenta a Academia IFIF de La Petite Lune. Com João de Sousa Monteiro fundou o Movimento Abaldista ou Abald, em ano incerto, num golpe de sorte. Fez parte do grupo dissidente "Os Surrealistas" do qual fazem parte entre outros os seguintes poetas Virgílio Martinho, Herberto Helder, António Quadros, M.S.Lourenço, Nicolau Saião, Mário Botas, Hermínio Monteiro e Miguel de Castro Henriques. Mais tarde com Mário Cesariny e M.S.Lourenço fundou o Bureau Surrealista ainda em actividade.
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A MENINA QUE TINHA MUITAS REVISTAS DEBAIXO DA CAMA

“A menina era maga e tinha muitas revistas debaixo da cama.
Um dia, ia um gato a passar, a menina caiu da cama a baixo e bateu com os olhos numa das revistas.
Ficou a ver tudo pelo canto dos olhos.
Ao chegar ao canto das casas em que vivia só via revistas e ao ver só revistas só via cantos das casas.
Quando queria agarrar nas revistas só agarrava em pedaços de parede ou caliça e quando queria limpar ou pintar a caliça acabava por limpar ou pintar revistas.
A mãe ralhava-lhe:
- Ó menina porque estão as revistas todas brancas?
Ó menina porque estão as revistas todas molhadas?
A menina não dizia nada e começava a chorar, e chorava tanto que até o gato se afligia.
Quando o gato se afligia arranhava o tapete.
A menina chorou tanto e o gato arranhou tanto o tapete que o tapete acabou por ficar gasto.
Quando ficou gasto viu-se que por debaixo dele havia uma porta no chão.
A mãe passou e ralhou:
- Porque fizeste tu uma porta aqui?
- Não fiz porta nenhuma! – disse a menina.
- Limpa esta porta daqui! – disse a mãe.
E a menina começou a limpar a porta, mas como só via pelo canto dos olhos em vez de limpá-la dali, abriu-a, e encontrou uma escada que descia muito para o fundo e que era muito escura ao principio.
O gato foi à frente.
Desceram e desceram cada vez mais, até que chegaram a uma grande sala muito escura.
Num grande caldeirão que era uma retrete estava sentado o diabo; noutro grande caldeirão que era uma fonte estava sentado Deus.
Entre os dois corria um rio. Dentro do rio nadavam umas almas que pareciam peixes e outras que pareciam caranguejos e outras ainda que pareciam pérolas.
As almas de vez em quando punham a boca fora de água e deitavam um sopro branco, outras um sopro vermelho e outras ainda um sopro azul.
O diabo queria apanhar tanto o sopro branco como o vermelho e o azul. Mas Deus não deixava.
Quando o gato apareceu o diabo disse:
- O que é isto?
Deus disse que aquilo era um gato e que um gato era um bicho muito sossegado e muito irritável.
Depois apareceu a menina e e o diabo disse:
- O que é isto?
E Deus explicou que a menina não era bicho nenhum, era uma alma ou muito plácida ou muito frenética, e sempre imprevisível.
O diabo agradeceu a Deus a explicação e mergulhou no rio.
Depois apareceu outra vez à tona da água e trouxe um cordel, um anel e um farnel.
- Para que são essas coisas’ – perguntou Deus levantando-se da fonte.
-O cordel é para a menina amarrar o gato a ela, o anel é para a menina amarrar o amor a ela e o farnel é para a menina amarrar o estômago a ela.
E assim foi.
A menina e o gato depois de se despedirem seguiram viagem para mais fundo ainda do que o fundo do mar.
Viram cidades todas talhadas em rochas e palácios todos talhados em coral. Viram estátuas que abriam e fechavam a boca e viram lobos marinhos que escreviam em máquinas de escrever.
Viram golfinhos que andavam de chapéu de palha e viram muitos sóis a puxar os cabelos uns aos outros. Viram brâmanes que passavam o dia inteiro de língua de fora a dizer a letra”i” e viram crocodilos que passavam o dia de boca aberta a dizer “IEAOU”.
-Aonde estão as revistas? – Perguntou o gato excitado.
- aqui não há revistas nenhumas. Aqui tudo o que tu vês e ouves é a revista – , disse a voz
Ao ouvir a voz a menina ficou curada
Tirou o cordel de volta do pescoço do gato e na ponta do cordel pendurou o anel.
O anel voou, voou e voou (era uma anel mágico) e encontrou um príncipe.
A menina a principio julgou que o príncipe era um tolinho que só sabia dizer “iam” e “ão”. Depois viu finalmente que era um sapo.
Deu-lhe metade da comida do farnel.
A outra comeu-a ela e o gato.
Depois montou-se no sapo e foram aos saltos para uma terra onde não havia mães.
Que terra é esta? Perguntou o gato que corria aos saltos, muito divertido com o sapo e com a menina que não parava de rir.
Do cimo de uma árvore que era tão grande que chegava quase até ao sol veio uma voz que disse:
- Esta é a terra para além de toda a expectativa.”
Miguel Castro Henriques
(Assírio&Alvim)
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