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sábado, 10 de abril de 2010

MIA COUTO - Venenos de Deus Remédios do Diábo



Venenos de Deus Remédios do Diabo
O jovem médico português Sidónio Rosa, perdido de amores pela mulata moçambicana Deolinda, que conheceu em Lisboa num congresso médico, deslocou-se como cooperante para Moçambique em busca da sua amada. Em Vila Cacimba, onde encontra os pais dela, espera pacientemente que ela regresse do estágio que está a frequentar algures. Mas regressará ela algum dia?
Entretanto vão-se-lhe revelando, por entre a névoa que a cobre, os segredos e mistérios, as histórias não contadas de Vila Cacimba — a família dos Sozinhos, Munda e Bartolomeu, o velho marinheiro, o administrador, Suacelência e sua Esposinha, a misteriosa mensageira do vestido cinzento espalhando as flores do esquecimento.
“Editorial Caminho”
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Mia Couto - Biografia
Mia Couto nasceu na Cidade da Beira (Moçambique) em 1955, filho de uma família de emigrantes portugueses. Publicou os primeiros poemas no "Notícias da Beira", com 14 anos. Em 1972, deixou a Beira e partiu para Lourenço Marques para estudar Medicina. A partir de 1974, começou a fazer jornalismo, tal como o pai. Com a independência de Moçambique, tornou-se director da Agência de Informação de Moçambique (AIM). Dirigiu também a revista semanal "Tempo" e o jornal "Notícias de Maputo".
Em 1985 formou-se em Biologia pela Universidade Eduardo Mondlane. Foi também durante os anos 80 que publicou os primeiros livros de contos. Estreou-se com um livro de poemas, "Raiz de Orvalho" (1983), só publicado em Portugal em 1999. Depois, dois livros de contos: "Vozes anoitecidas" (1986) e "Cada Homem é uma Raça" (1990).Em 1992 publicou o seu primeiro romance, "Terra Sonâmbula". A partir de então, apesar de conciliar as profissões de biólogo e professor, nunca mais deixou a escrita e tornou-se um dos nomes moçambicanos mais traduzidos: espanhol, francês, italiano, alemão, sueco, norueguês e holandês são algumas línguas. Outros livros do autor: "Estórias Abensonhadas" (1994); "A Varanda do Frangipani" (1996); "Vinte e Zinco" (1999); "Contos do Nascer da Terra" (1997); "Mar me quer" (2000); "Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos" (2001); "O Gato e o Escuro" (2001); "O Último Voo do Flamingo" (2000); "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra" (2002). "O Fio das Missangas" (2004) é o seu último livro de contos.
Em 1999 foi vencedor do prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra, um dos mais conceituados prémios literários portugueses, no valor cinco mil euros, que já premiou Maria Velho da Costa, Maria Judite de Carvalho e Eduardo Lourenço, entre outros. Em 2001, recebeu também o Prémio Literário Mário António (que distingue obras e autores dos países africanos lusófonos e de Timor-Leste) atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian por "O Último Voo do Flamingo" (2000).





domingo, 4 de abril de 2010

JOSÉ LUÍS PEIXOTO - Cemitério de Pianos




José Luís Peixoto oferece-nos um texto mágico, no qual se cruzam, numa interacção fluida, diálogos cúmplices com a grande tradição da literatura portuguesa e universal.
Um romance que começa com uma narrativa simples e linear mas que aos poucos se torna cada vez mais complexa, resultado de um puzzle de imensos pedaços de texto em que cada um foca uma determinada situação temporal que é por sua vez relatada por personagens distintos, num encadeamento de saltos cronológicos para trás e para a frente, onde a história de um dos personagens principais e aparente autor/narrador do livro se confunde com a história do seu neto, estando a base do romance centrada na história do seu filho Francisco Lázaro, corredor da maratona dos Jogos Olímpicos de 1912 (onde falece no decorrer da mesma), e dos seus outros três filhos, Marta, Maria e Simão. O leitor fica preso a um enredo onde constantemente se questiona se determinado personagem se trata do avô ou do neto, encontrando um nó cego com provas de ambas as condições sem que tais se contradigam de forma absoluta, estando a chave do labirinto narrativo na oficina da família que alberga um cemitério de pianos que constantemente são usados para reparação e reconstrução de outros pianos, metáfora que dá corpo a uma história de três gerações onde todos os personagens se reconstroem uns nos outros, e onde cada um dá uma perspectiva diferente da sua própria história, sendo denominador comum os amores idealizados e as frustrações concretizadas, num misto de ternos momentos de felicidade e tragédias cruéis, símbolos de vidas comuns com um quotidiano monótono mas onde as expectativas e realizações de cada um lhe dão cores vivas e diferentes, matizadas de forma poética pelo escritor deste romance.

Misturando factos a partir de pontos de vista de cada personagem com alguns momentos de fantasia e irrealidade, o relato de um morto acerca dos momentos de antes e de depois da sua morte, dos relatos de vida do seu filho também morto até ao momento da sua morte, as sentenças duras da neta de três anos em dois diálogos adultos com o espírito do avô, colocando em perspectiva a idílica visão do avô acerca da sua vida e a contrastante dura visão que os seus familiares tinham acerca dele. Com violentos e duros momentos que marcam a vida dos seus filhos, sobressaem os eternos laços de sentimentos que os unem e que geram momentos aparentemente vulgares mas plenos de significação emotiva que adjectivam e dão sentido às suas aparentemente vazias existências.

O livro deixa o leitor em suspenso e curioso até ao seu final devido aos constantes episódios partidos que pedem continuação e fecho, oferecendo momentos de morte que coincidem com momentos de nascimento, histórias de amor, de desilusão, de traições, de ambições e de acomodação, em pequenas peças que se vão montando de forma difusa e labiríntica, juntando-se num todo tornado consistente até final do livro, numa orquestração subtil e bem encadeada que não alcança mais que aquilo que promete de início, consolidando uma talvez triste história de vidas desperdiçadas, mas que comove e deixa uma ideia de vidas realizadas com muitos momentos de terna eternidade completados com a esperança do devir que afinal sempre repete.


Como nota de rodapé, o interessante trabalho biográfico efectuado em torno da pessoa real que foi o atleta Francisco Lázaro, e da temática dos pianos e da sua sonoridade como alicerces de uma analogia entre as os delicados mecanismos físicos e a beleza pura do som que se pode obter deles, com a fragilidade e diversidade de sentimentos e sensações do ser humano, reparáveis e reconstruíveis.
JOSÉ LUÍS PEIXOTO - Biografia
Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (variante Inglês e Alemão), pela Universidade Nova de Lisboa, foi professor em vários pontos do país e em Cabo Verde.

Actualmen
te trabalha como jornalista e crítico literário em vários jornais e tem colaborado, com textos de ficção, em revistas literárias. Entre outros textos seus que têm sido encenados, fez o guião para um vídeo do músico rap Sam the Kid e o libreto para uma ópera para crianças baseada no mito de Orpheu e Eurídice, encenada pela companhia teatral Útero.

Começou a publicar prosa e poesia no suplemento «DN Jovem», do jornal Diário de Notícias, tendo sido vencedor do Prémio Jovens Criadores do Instituto Português da Juventude em 1997, 1998 e 2000. Alguns desses poemas foram publicados posteriormente nos cadernos Átis e reunidos no volume A criança em ruínas (2001).

Nenhum olhar, publicado no ano 2000, o primeiro romance de José Luís Peixoto, foi imediatamente saudado como uma grande obra de estreia: venceu o Prémio Literário José Saramago e foi seleccionado para dois dos mais conceituados prémios literários: o Grande Prémio de Romance e Novela da A.P.E. e o Prémio de Ficção do PEN Clube Português. Blank gaze (na tradução inglesa) foi incluído na lista dos melhores livros de ficção publicados no Reino Unido em 2007 do jornal britânico Financial Times.

Está publicado em mais de dez línguas.

sábado, 3 de abril de 2010

MIGUEL DE CASTRO HENRIQUES - Uma Menina de Sete Gatos ou o Saldo de Eüler



Este é um livro de crónicas onde a imaginação não conhece limites, dando-nos a conhecer um mundo fantástico. As histórias são construídas de forma labiríntica, introduzindo elementos que por vezes não nos ajudam a encontrar a saída, mas pelo contrário nos fazem mergulhar ainda mais na leitura, inundando-nos de ficção. São pequenas odisseias onde tudo é possível, uma vez que nos encontramos no domínio dos sonhos das personagens e dos nossos próprios sonhos.
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Miguel de Castro Henriques (Buenos Aires, 5 de Junho de 1954) é um escritor, poeta, pintor e tradutor, representante do surrealismo português.
Frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa e estudou filosofia na Faculdade de Vincennes, onde foi aluno de Gilles Deleuze. Durante a sua estadia em Paris em 1971 frequenta a Academia IFIF de La Petite Lune. Com João de Sousa Monteiro fundou o Movimento Abaldista ou Abald, em ano incerto, num golpe de sorte. Fez parte do grupo dissidente "Os Surrealistas" do qual fazem parte entre outros os seguintes poetas Virgílio Martinho, Herberto Helder, António Quadros, M.S.Lourenço, Nicolau Saião, Mário Botas, Hermínio Monteiro e Miguel de Castro Henriques. Mais tarde com Mário Cesariny e M.S.Lourenço fundou o Bureau Surrealista ainda em actividade.
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A MENINA QUE TINHA MUITAS REVISTAS DEBAIXO DA CAMA
“A menina era maga e tinha muitas revistas debaixo da cama.
Um dia, ia um gato a passar, a menina caiu da cama a baixo e bateu com os olhos numa das revistas.
Ficou a ver tudo pelo canto dos olhos.
Ao chegar ao canto das casas em que vivia só via revistas e ao ver só revistas só via cantos das casas.
Quando queria agarrar nas revistas só agarrava em pedaços de parede ou caliça e quando queria limpar ou pintar a caliça acabava por limpar ou pintar revistas.
A mãe ralhava-lhe:
- Ó menina porque estão as revistas todas brancas?
Ó menina porque estão as revistas todas molhadas?
A menina não dizia nada e começava a chorar, e chorava tanto que até o gato se afligia.
Quando o gato se afligia arranhava o tapete.
A menina chorou tanto e o gato arranhou tanto o tapete que o tapete acabou por ficar gasto.
Quando ficou gasto viu-se que por debaixo dele havia uma porta no chão.
A mãe passou e ralhou:
- Porque fizeste tu uma porta aqui?
- Não fiz porta nenhuma! – disse a menina.
- Limpa esta porta daqui! – disse a mãe.
E a menina começou a limpar a porta, mas como só via pelo canto dos olhos em vez de limpá-la dali, abriu-a, e encontrou uma escada que descia muito para o fundo e que era muito escura ao principio.
O gato foi à frente.
Desceram e desceram cada vez mais, até que chegaram a uma grande sala muito escura.
Num grande caldeirão que era uma retrete estava sentado o diabo; noutro grande caldeirão que era uma fonte estava sentado Deus.
Entre os dois corria um rio. Dentro do rio nadavam umas almas que pareciam peixes e outras que pareciam caranguejos e outras ainda que pareciam pérolas.
As almas de vez em quando punham a boca fora de água e deitavam um sopro branco, outras um sopro vermelho e outras ainda um sopro azul.
O diabo queria apanhar tanto o sopro branco como o vermelho e o azul. Mas Deus não deixava.
Quando o gato apareceu o diabo disse:
- O que é isto?
Deus disse que aquilo era um gato e que um gato era um bicho muito sossegado e muito irritável.
Depois apareceu a menina e e o diabo disse:
- O que é isto?
E Deus explicou que a menina não era bicho nenhum, era uma alma ou muito plácida ou muito frenética, e sempre imprevisível.
O diabo agradeceu a Deus a explicação e mergulhou no rio.
Depois apareceu outra vez à tona da água e trouxe um cordel, um anel e um farnel.
- Para que são essas coisas’ – perguntou Deus levantando-se da fonte.
-O cordel é para a menina amarrar o gato a ela, o anel é para a menina amarrar o amor a ela e o farnel é para a menina amarrar o estômago a ela.
E assim foi.
A menina e o gato depois de se despedirem seguiram viagem para mais fundo ainda do que o fundo do mar.
Viram cidades todas talhadas em rochas e palácios todos talhados em coral. Viram estátuas que abriam e fechavam a boca e viram lobos marinhos que escreviam em máquinas de escrever.
Viram golfinhos que andavam de chapéu de palha e viram muitos sóis a puxar os cabelos uns aos outros. Viram brâmanes que passavam o dia inteiro de língua de fora a dizer a letra”i” e viram crocodilos que passavam o dia de boca aberta a dizer “IEAOU”.
-Aonde estão as revistas? – Perguntou o gato excitado.
- aqui não há revistas nenhumas. Aqui tudo o que tu vês e ouves é a revista – , disse a voz
Ao ouvir a voz a menina ficou curada
Tirou o cordel de volta do pescoço do gato e na ponta do cordel pendurou o anel.
O anel voou, voou e voou (era uma anel mágico) e encontrou um príncipe.
A menina a principio julgou que o príncipe era um tolinho que só sabia dizer “iam” e “ão”. Depois viu finalmente que era um sapo.
Deu-lhe metade da comida do farnel.
A outra comeu-a ela e o gato.
Depois montou-se no sapo e foram aos saltos para uma terra onde não havia mães.
Que terra é esta? Perguntou o gato que corria aos saltos, muito divertido com o sapo e com a menina que não parava de rir.
Do cimo de uma árvore que era tão grande que chegava quase até ao sol veio uma voz que disse:
- Esta é a terra para além de toda a expectativa.”
Miguel Castro Henriques
(Assírio&Alvim)


sexta-feira, 2 de abril de 2010

MIGUEL DE CASTRO HENRIQUES - Uma Nuvem num Pote de Barro



“Gostava de um dia ler estes meus contos como se fossem de outra pessoa, de alguém que ao mesmo tempo sou eu e não sou se. Escrevi-os sem atravessar as torturas que dizem ter o acto criativo. Ao contrário, deixei-me levar por uma voz interior pequena, quase muda e reticente, e de aparição instável, de tal modo que o subtítulo deste livro poderia ser “Contos da Pequeníssima Lua”.
Penso que os contos são um modo de regressarmos a nós, à surpresa de ser e redescoberta da nossa identidade, e também são entretenimento. Esta é uma palavra de que a industria dos media se apropriou para adormecer a nova tribo planetária, a tribo audiovisual. Porém, entreter tem um significado mais amplo do que uma simples diversão, tem a ver com um domínio do tempo, com uma suspensão do tempo, que o pode dilatar e fazer entrar no registo do tempo mítico.
Sendo assim estes contos foram escritos contra e a favor do tempo moderno. Contra, porque a fragmentação, nova formatação e compactamento do tempo moderno induzem experiências esquizofrénicas; a favor, porque tem a haver um tempo absolutamente moderno que abranja todos os tipos de tempo que até agora experienciámos.
Toquei em alguns personagens lendários da história de Portugal, e tratei de trazer à luz o seu lado obscuro, labiríntico, em vez da versão platónica que aprendi na infância. Para mim, a contemporaneidade mais vibrante brinca com uma re-apropriação e re-invennção de todos os passados e também com um certo jogo barroco do significante.
No entanto, nunca se consegue o objectivo; mesmo depois da flecha acertar no alvo, o alvo continua a voar. Talvez seja esse afinal o objectivo: encontrar um novo alvo”
Miguel de Castro Henriques
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Miguel de Castro Henriques (Buenos Aires, 5 de Junho de 1954) é um escritor, poeta, pintor e tradutor, representante do surrealismo português.
Frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa e estudou filosofia na Faculdade de Vincennes, onde foi aluno de Gilles Deleuze. Durante a sua estadia em Paris em 1971 frequenta a Academia IFIF de La Petite Lune. Com João de Sousa Monteiro fundou o Movimento Abaldista ou Abald, em ano incerto, num golpe de sorte. Fez parte do grupo dissidente "Os Surrealistas" do qual fazem parte entre outros os seguintes poetas Virgílio Martinho, Herberto Helder, António Quadros, M.S.Lourenço, Nicolau Saião, Mário Botas, Hermínio Monteiro e Miguel de Castro Henriques. Mais tarde com Mário Cesariny e M.S.Lourenço fundou o Bureau Surrealista ainda em actividade.
Miguel de Castro Henriques tem amplamente praticado a escrita e a pintura automática, e alguns dos seus livros de contos, como Uma Nuvem num Pote de Barro foram publicados na Assírio&Alvim.

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